DW! 2020: highlights do percurso da curadora Lúcia Gurovitz pelo festival

por Lúcia Gurovitz | 04 de dezembro de 2020 | Fotos: Divulgação

Trabalhar em casa não é novidade para mim, mas acho que nunca tinha feito tantas reuniões virtuais num mesmo dia como nas semanas que antecederam a DW! Para não atrapalhar ninguém da família com as conversas, me isolei no meu quarto e criei um cantinho improvisado, com uma cadeira que trouxe da sala de jantar e o notebook apoiado numa miniestante de livros. Coisas de 2020.

No ano passado, nesses encontros de curadoria pré-festival, era comum ter um preview de alguma nova coleção ou cenografia, em tours pelos bastidores de lojas e ateliês. Neste ano, os spoilers vieram na forma de “deixa eu compartilhar minha tela com você”. No fim, acho que isso aumentou a expectativa para ver ao vivo as atrações da Semana de Design (nós, curadoras, entramos no esforço de cobertura dos eventos quando a DW! começa para valer). Foi ótimo bater perna e matar saudade de gente com quem não topava há muito tempo (sem abraço e beijinho, com máscara e distanciamento, claro!). Aí vão alguns pontos altos do meu circuito.

 

Os tapetes exuberantes do arquiteto Thiago Santa Cruz na By Kamy, feitos de lã (paredes) e sobras do material Revolution (piso).

 

As reflexões a respeito dos últimos meses ganharam um clima de esperança na By Kamy: a marca trabalhou o tema Metamorfose e apostou em um novo talento, o arquiteto Thiago Santa Cruz, autor da coleção de tapetes Avatar. As peças nasceram de uma imersão de Thiago na fábrica da empresa, durante a qual ele aprendeu processos têxteis e técnicas de reciclagem de tapetes antigos e sobras de produção, sob a orientação do artista Kiko Maldonado, coordenador do selo By Kamy Verde. O resultado são peças exuberantes, com recortes ousados e estampas elaboradas, que colocam o astral da casa lá em cima. 

 

Um canto da mostra Design Oriundi na Idália: sofá de Guto Requena, mesa lateral de Guilherme Wentz e luminária da Accord Design.

 

Ainda na By Kamy, como não exaltar o trabalho da curadora Joice Joppert Leal, organizadora da mostra Design Oriundi? Joice teve o insight de analisar a influência da imigração no design nacional e destacar como artistas e designers expressam o mix de culturas em suas criações. Como resultado, ela reuniu uma bela amostra da produção recente dos estúdios brasileiros e a dividiu em duas partes, uma exposta na By Kamy, e a outra, na Idália. O mais legal foi ver como a montagem, nos dois endereços, estabelecia um diálogo entre produtos tão diferentes. 

Divirta-se e faça o bem com a Colormix: a renda obtida com a venda dos painéis da Galeria de Memes será doada para o Decor Social.

 

Criatividade é o que não falta no Brasil, seja no design, seja no humor. Foi assim que nos tornamos a pátria dos memes, como comprova a Galeria de Memes, exposta na Colormix Store. Nos dois endereços da marca, na al. Gabriel e na r. Tabapuã, painéis de mosaico, feitos dos mais diversos revestimentos, reproduziam algumas das piadas mais memoráveis da internet. Mais do que divertir e viralizar, a proposta da ação é fazer o bem, já que os painéis serão vendidos e a renda, revertida para o Decor Social, associação fundada por arquitetos e designers de interiores com o objetivo de reformar espaços que recebem pessoas em situação de vulnerabilidade social. Quer ajudar? Aqui você descobre como auxiliar essa e outras instituições. 

Clima de casa aconchegante e mobiliário assinado exclusivo no showroom da Odara

 

Num ano de tanta incerteza, quero destacar a ousadia e a coragem de duas inaugurações realizadas durante a DW!: os showrooms da Odara e do estúdio Mula Preta. Ambos com espaços amplos, gostosos de visitar, e mobiliário para resolver a casa inteira. Na Odara, a curadoria e a cenografia são obra da designer de interiores Gal Nunes, proprietária da marca, que montou um portfólio de peças exclusivas em São Paulo, assinadas por nomes como Amélia Tarozzo, Giácomo Tomazzi, Giorgio Bonaguro, Lattoog e Ronald Sasson. A loja fica na av. Europa e tem espaços decorados como se fossem uma casa. O bom gosto de Gal se revela também na escolha de objetos, luminárias, tapetes e obras de arte e serve de inspiração para quem percorre os ambientes da Odara. O melhor? Tudo ali dentro está à venda.

Direto do Rio Grande do Norte, o estúdio Mula Preta chega à al. Gabriel em grande estilo, valorizando sua origem.

 

Já o Mula Preta, na descolada Upper Gabriel (o trecho da al. Gabriel próximo ao encontro com a av. Rebouças), é a casa paulistana do estúdio fundado em Natal pelos designers André Gurgel e Felipe Bezerra. Conhecida pelo traço bem-humorado e por ressaltar suas raízes nordestinas no design (o nome da marca, homenageia a famosa música de Luiz Gonzaga), a dupla caprichou em todos os detalhes do novo endereço, projetado pela EMA Arquitetura e com paisagismo de Alex Hanazaki — repleto de cactos, como não poderia deixar de ser.

 

Móveis e objetos que questionam o limite entre arte e design compõem a mostra É Arte? É Design?, na Galeria Bolsa de Arte.

 

Por fim, uma nota mais afetuosa para falar da exposição É Arte? É Design?, com curadoria da amiga querida Regina Galvão. Talentosa que só, Regina reuniu, na Galeria Bolsa de Arte, na Vila Madalena, peças no limiar entre arte e design e que representam a força dos momentos de maior liberdade criativa de grandes nomes brasileiros. Carol Gay, Hugo França, Inês Schertel, Irmãos Campana, Jacqueline Terpins, Rodrigo Ohtake, Zanine de Zanini e muitos outros feras estão por lá. E ainda dá tempo de visitar, pois a mostra segue aberta até 5 de dezembro.     

 

Lúcia Gurovitz é jornalista e há mais de 20 anos trabalha em publicações da área de design, decoração e arquitetura. Viu nascer a DW! e como o festival ajudou a fomentar uma cultura de design na cidade de São Paulo. Fez parte do time de curadoria da DW! Semana de Design de São Paulo em 2019 e 2020.

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