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Design e artesanato e seus referenciais teóricos

por Nicole Tomazi* 

O artesanato é uma das mais expressivas manifestações da cultura brasileira. Os produtos artesanais, quando carregam valores culturais, ampliam a percepção da territorialidade. (1;2)

Conforme a UNESCO (12), os diálogos entre as comunidades podem ser renovados pelos processos de globalização. Por outro lado, a intolerância, os riscos de deterioração e desaparecimento do patrimônio cultural imaterial são gerados pelos processos de globalização e transformação social, o que justifica o desenvolvimento de meios para sua salvaguarda.

A atividade artesanal é baseada na riqueza cultural, sendo uma produção mutante que varia de acordo com o território onde está inserida, adaptando-se às alterações e modificações do tempo. Sendo assim, perpetua os saberes e o modo de vida dos indivíduos, além de atuar no âmbito social e ser considerada uma atividade econômica. (3;2)  

Nesta linha, a união do design e artesanato tem gerado benefícios sociais inquestionáveis promovendo o fortalecimento das identidades culturais e da conexão dos indivíduos com seu território. Surge, assim, na atualidade a concepção do designer como propulsor de transformações sociais em contraponto à visão do designer como um mero projetista de artefatos industriais. (4;5;6)

Este artigo visa corroborar referenciais teóricos sobre cultura, patrimônio, artesanato e design, para apresentar uma possibilidade de manutenção cultural a partir de ações colaborativas voltadas a grupos sociais.

Para tanto, o artigo está dividido em 5 partes, sendo a primeira uma abordagem sobre cultura, patrimônio e sua relação com os grupos sociais. Nesta, destaca-se a importância do patrimônio em um cenário globalizado visando à afirmação das identidades. A seção seguinte trata das iniciativas culturais no Brasil, com enfoque na manutenção da cultura e nas práticas artesanais, apresentando as ações mais significativas na área. A importância do artesanato como representação tangível da relação dos indivíduos com sua história e cultura é apresentada na terceira parte que trata, ainda, da relevância da produção artesanal no cenário social brasileiro. Na quarta seção especula-se um caminho de identificação e valorização cultural por meio da intersecção do design com o artesanato. Com base no referencial teórico da área são indicadas possibilidades de trabalho conjunto visando a salvaguarda do patrimônio e de que modo esta ação pode ocorrer. Por fim, as considerações finais apresentam possibilidades de respeito à diversidade cultural no âmbito do artesanato por meio de ações de design.


CULTURA E PATRIMÔNIO

Ao estudar a cultura, é preciso atender ao dinamismo e à simbiose do desenvolvimento dos grupos sociais e dos indivíduos. É a partir da construção de grupos que estes indivíduos “exprimem a sua linguagem, os seus valores, gestos e comportamento e a sua identidade” (7). Segundo Freitas (8), o aprofundamento no estudo da cultura dos bens materiais é importante principalmente pelos mesmos serem um reflexo de uma época, reproduzindo a estrutura cultural de uma sociedade, sendo, pela sua própria existência, uma herança social.

Geertz (9) define cultura como um padrão de significados incorporados a símbolos que são transmitidos no decorrer da história. O autor se recusa a buscar leis universais de significado.

Para Ono (10), a identidade cultural é mutável, aberta, e composta por valores, comportamentos e referências expressas no desenvolvimento de grupos sociais e indivíduos: “a cultura se encontra essencialmente vinculada ao processo de formação das sociedades humanas”. 

O cenário mundial atual apresenta dois caminhos oriundos do processo de globalização e homogeneização cultural. O primeiro trata do distanciamento das comunidades em relação à sua cultura local e o segundo, em contraponto, apresenta uma resistência dos grupos sociais por meio da reafirmação das identidades locais. (11)

O patrimônio cultural, portanto, é de extrema importância para a manutenção da diversidade e para o desenvolvimento social sustentável, sendo sua salvaguarda interesse universal (12). Ele valoriza e consagra o que é comum a um determinado grupo social tanto no espaço quanto no tempo. Este patrimônio engloba o meio ambiente, o saber fazer e os artefatos resultantes da interação do homem com a natureza (13).

Segundo a UNESCO (12), em definição dada pela Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, o Patrimônio Imaterial compreende todas as manifestações oriundas de um determinado grupo social, bem como os instrumentos e produtos que lhes são associados, reconhecidos pelos mesmos como parte integrante de seu patrimônio. Este patrimônio é passado de geração em geração sendo um promotor de “respeito à diversidade cultural e à criatividade humana”.

Assim, de acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN-, o patrimônio imaterial está em constante transformação, e muda de acordo com a interação dos grupos com o ambiente onde vivem e de sua história. O patrimônio cultural imaterial se manifesta nos campos das tradições e expressões orais, nas expressões artísticas, cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas, nas práticas sociais, nos rituais e atos festivos, conhecimentos e práticas relacionadas à natureza e ao universo, nos lugares que abrigam práticas culturais coletivas, nas práticas artesanais tradicionais e nos ofícios ou modos de fazer. (12;14)

O objetivo primário da identificação do Patrimônio Imaterial é o de assegurar a responsabilidade em relação à preservação deste patrimônio no seu território. (IPHAN, 2006). Para Souza (15), o patrimônio é vivo, resultado da valorização das experiências dos indivíduos que, ao realizarem e desenvolverem geram o bem estar das comunidades.

Mesmo com o entendimento da importância da manutenção da cultura, não existem instrumentos concisos destinados à salvaguarda do patrimônio cultural imaterial (12). Para Tomaz (13), ao cuidar do patrimônio, resguarda-se a memória, contextualizando e valorizando as relações sociais existentes. 

A necessidade de conscientização da importância da cultura local gerou medidas que visam garantir sua manutenção, sendo elas: identificação, documentação, investigação, preservação, proteção, promoção, valorização, revitalização e transmissão por meio da educação. A participação das comunidades nas atividades de salvaguarda deve ser ativa, de modo a fazer com que os criadores sejam também transmissores dessa cultura (12).

A interpretação do patrimônio natural e cultural apresenta a unicidade de um lugar, fazendo com que qualquer visitante apreenda o que lhe é estranho ao estabelecer uma conexão com o mesmo, para que se sinta instigado a ampliar seu conhecimento. Sendo assim, “como a experiência turística é fortemente visual, o olhar do visitante procura encontrar a singularidade do lugar, seus símbolos e significados mais marcantes”. (16)

Conforme Franzato (17), da união de natureza e cultura, como uma trama que compõe um tecido, surge a concepção de território. Ao se optar por uma abordagem territorial, deve haver a valorização do patrimônio material e imaterial, dos recursos da biodiversidade. Estes elementos fazem parte de um lugar específico e são construídos ao longo do tempo pelos indivíduos que ali habitam. (18)

Segundo Krucken (18), as manifestações culturais podem ser traduzidas em produtos locais, já que estes são relacionados diretamente com o seu território e com a comunidade produtora; “envolvem, portanto, bens materiais e imateriais, tangíveis e intangíveis que compreendem o patrimônio cultural” (17). Dentro do contexto artesanal, é importante distinguir as iniciativas e estudos para a preservação do artesanato das iniciativas de valorização da atividade artesanal a partir de ações comerciais, já que as técnicas artesanais são consideradas expressões tangíveis do Patrimônio Imaterial (15)

A relevância de iniciativas culturais é primordial para a manutenção do patrimônio. Sendo assim, a seguir serão apresentadas algumas iniciativas para o desenvolvimento da cultura no Brasil, como instituições de fomento e ações de salvaguarda.



INICIATIVAS CULTURAIS NO BRASIL 


As políticas culturais foram institucionalizadas no Brasil com a chegada da família real portuguesa. De lá aos dias de hoje, os governos mantiveram interesse no desenvolvimento cultural, utilizando o mesmo para ênfases diversas e adequadas a cada época da história brasileira. Inicialmente a intenção era limitar o acesso à cultura para um pequeno grupo social. Desta forma, com o passar dos anos, a abrangência de público atingido pelos incentivos culturais mudou, de modo que “programas públicos dirigem-se ao suporte das culturas populares secularmente marginalizadas e oprimidas” 
(19).

Conforme Oliveira (20), no decorrer dos anos o Estado moderno utilizou a cultura para disseminar uma unidade identitária de nação, a fim de manter a integralidade nacional. Deste modo, uma unificação de identidade nacional foi, em muitos casos, ferramenta para a manutenção do Estado (20). Para Ortiz (21), “a memória nacional opera uma transformação simbólica da realidade social, por isso não pode coincidir com a memória particular dos grupos populares” (21).

Mesmo com as tentativas de imposição de uma identidade nacional única, as instituições de fomento surgiram da intenção de manter viva a prática artesanal, com ações de planejamento para que esta prática perdurasse não só pelo seu valor cultural, mas pela sua capacidade de geração de renda (22).

A partir da década de 1970, reiniciou-se o debate sobre o resgate da identidade nacional. Houve uma busca pela ampliação do entendimento e da preservação do patrimônio por meio de pesquisas, registros e políticas públicas (23). Nesse sentido, pode-se citar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, órgão que iniciou a formação de agentes públicos e organizou programas voltados para o desenvolvimento da produção artesanal focada na cultura local. (22)

Os bens culturais que representam grupos formadores da sociedade brasileira foram inseridos como bens a serem preservados no ano de 1988, com o reconhecimento das naturezas materiais e imateriais da cultura. Sendo o Patrimônio Cultural Imaterial um elemento vivo, que muda de acordo com os fluxos dos grupos sociais e da passagem de gerações, sua preservação contribui para o respeito à diversidade das culturas. (24)

Uma possibilidade de preservação surge com o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI), que visa viabilizar projetos para identificar, reconhecer, salvaguardar e promover o patrimônio imaterial cultural. O PNPI foi criado “visando à implementação de política específica de inventário, referenciamento e valorização desse patrimônio”. (IPHAN, 2000, p.3). A promoção da inclusão social e a melhoria de vida dos detentores e produtores da cultura imaterial são algumas das diretrizes do PNPI, sendo o objetivo das mesmas a transmissão e a manutenção das manifestações culturais. Deste modo, acredita-se que os participantes de programas de salvaguarda da cultura ampliem seu acesso aos benefícios gerados, sendo assim protegidos e valorizados. (IPHAN, 2015).

Para Murta (25), somente uma comunidade voltada para a preservação de seu patrimônio, fazendo do mesmo a base de seu desenvolvimento econômico, pode enfrentar demandas com autonomia. “Assim, a saída para a preservação é capacitar a comunidade para assimilar e explorar, em seu favor, as pressões do progresso e desenvolvimento.” (25)

Inovar e valorizar a tradição são questões desafiadoras, sendo muitas vezes antagônicas e complementares ao mesmo tempo e “[...] parecem emergir sucessivamente na sociedade ao decorrer do tempo” (18). Para Moraes e Cavalcante (26), a disseminação do conhecimento sobre as culturas locais e suas potencialidades é uma das possibilidades de valorização cultural, o que amplia o desenvolvimento e a sustentabilidade nos âmbitos social e cultural. (26)

Com esse propósito surgem iniciativas públicas de fomento à cultura, sendo muitas delas programas criados para o apoio ao artesanato brasileiro, dando suporte aos artesãos tanto no âmbito de seu processo produtivo como no apoio à comercialização e divulgação. (27)

Para Pinho (28), muito se tem feito para o desenvolvimento do setor, seja por meio de instituições públicas ou privadas, organizações não-governamentais (ONGs) ou governos, cabendo ressaltar que importantes somas têm sido investidas como fomento ao artesanato. 

Um exemplo é o Programa de Artesanato do SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas-, que surgiu em 1988 para atuar de forma sistêmica na atividade artesanal, atingindo toda a sua cadeia produtiva. 

Na década de 1990 muitas instituições de fomento incorporaram aos seus planos de ação iniciativas voltadas ao setor artesanal. O Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) foi lançado no ano de 1991 na expectativa de ampliar o nível cultural, social e econômico dos artesãos, aprimorando os mesmos do ponto de vista pessoal e também dos produtos que geravam. A intenção era de promover o artesanato no mercado, com enfoque no fortalecimento e no estímulo do desenvolvimento da identidade local. (3;29)

O SEBRAE é um dos órgãos de abrangência nacional que fomenta o desenvolvimento artesanal a partir de cursos e oficinas (4). É do SEBRAE o Termo de Referência do Artesanato, documento do ano de 2004 que organiza e classifica as manifestações artesanais brasileiras. O termo foi elaborado a partir dos resultados do Programa de Artesanato do SEBRAE de 1999 a 2003, seus cinco primeiros anos de atuação. (30)

Segundo Johann (31), as classificações determinadas no Termo de Referência do Artesanato servem de base para outras instituições brasileiras de fomento ao artesanato. A falta de unificação de conceitos, aplicações e abordagens fez com que o programa não apresentasse uma continuidade, sendo a falta de integração de ações no âmbito dos 27 estados brasileiros seu maior ponto fraco. Porém, mesmo com estas peculiaridades, o Programa do Artesanato desenvolvido pelo SEBRAE, somente nos seus cinco primeiros anos, capacitou noventa mil artesãos em suas oficinas e cursos de capacitação. (4;30)

As ações voltadas ao artesanato visam à autonomia econômica dos grupos. Acredita-se que, após passarem por intervenções apoiadas pelas instituições de fomento, os mesmos desenvolvam a autossuficiência para lidar com o mercado e aprimorem a gestão de processos e produtos. Estas iniciativas trazem aos grupos a melhoria da competitividade e a ampliação da inserção do artesanato no mercado. (22)

Sendo assim, a seção seguinte apresenta um aprofundamento nos aspectos do artesanato, a fim de organizar as referências teóricas sobre a temática e ampliar a discussão sobre o assunto.

ASPECTOS DO ARTESANATO 


Para Aguiar e Parente
(29), “a história do artesanato é a própria história da civilização”, dada a importância da produção manual para a sobrevivência do homem. (29)

A fabricação de objetos artesanais é citada em diversas épocas e culturas, revelando sua antiguidade, sendo até mesmo entendida como precursora das atividades industriais estandardizadas atuais, já que o processo de fabricação artesanal pode ser comparado a uma pequena indústria especializada. O diferencial primordial está na individualização e humanização do processo artesanal, feito com as mãos, quando o artesão imprime seu cunho pessoal, utilizando meios tradicionais de produção aliados à sua habilidade técnica, qualidade e originalidade. (32)

Para Moraes (33), o artesanato é o produto espontâneo do convívio do homem com os aspectos da sua cultura e tradição. O artesanato, portanto, seja através de seu processo de produção ou por meio dos produtos gerados, não pode ser considerado uma simples atividade manual. Ele traduz a essência do artesão, um artífice que, com sua habilidade, encontra soluções para seus problemas e necessidades com destreza e criatividade fora dos padrões convencionais de produção. Assim, o produto artesanal vem encontrando espaço no cenário globalizado atual, pois carrega em si aspectos particulares do artesão, sua cultura e identidade. (34)

Talvez, por este motivo, o artesanato seja um produto tão interessante. Pode-se perceber nitidamente a mão do homem, presente no processo que resultou em sua forma e em suas características. Por trás do artesanato existe “tempo humano”, coisa rara no século XXI. O tempo humano está presente “no pensar” e “no fazer”, que provoca também uma apreciação mais profunda “do usar”. Ou seja, o artesanato rememora um ritual do fazer e estimula um ritual de fruição. (18)

De acordo com Keller et al (27), no Brasil as raízes do artesanato remontam aos tempos das corporações de ofícios, órgãos reguladores dos modos de produzir da época das colônias. Atualmente, a atividade artesanal representa uma parcela significativa da economia que, além de absorver mão-de-obra, é mantenedora da cultura, utilizando técnicas passadas de geração para geração, expressando, assim, o saber popular. A existência do artesanato nos dias atuais, portanto, não se refere somente a esta conexão com a história, mas também à sustentabilidade de comunidades, sendo responsável pela geração de renda de muitas famílias. (31)

Surge, então, a necessidade de organização da produção artesanal de modo a colaborar com o desenvolvimento do setor. Visando a facilitação de ações como planejamento, execução e monitoramento de projetos, voltadas para cada categoria artesanal, foi elaborado o Termo de Referência do Artesanato, dentro do Programa SEBRAE de Artesanato. O documento classifica o artesanato em relação aos processos produtivos, usos, organização de trabalho e matérias-primas utilizadas. Esta organização apresenta a diversidade da área e as possibilidades de percepção do setor. (SEBRAE, 2010).

A classificação proposta pelo SEBRAE contribui, por exemplo, para uma maior assertividade das ações de fomento e apoio ao artesanato uma vez que propicia a captação de recursos de acordo com a organização dos artesãos, conforme Aguiar e Parente (29). Sendo assim, é possível oferecer melhores condições de vida para comunidades diversas onde o artesanato serve “como estímulo econômico gerador de capacitação de mão de obra e agente de resgate dos traços identitários das culturas dessas comunidades” (3).

Para Brandão et al (2) uma estratégia de ampliação das atividades artesanais é a integração com outras cadeias produtivas como o turismo. Este pensamento converge com Martins (35), para o qual o artesanato está entre os produtos e serviços do setor turístico. Na visão do autor, os produtos artesanais identificam a cultura local, atuando como elo entre o território onde são produzidos e o resto do mundo. Estes objetos são adquiridos devido ao seu significado, por lembrarem um lugar e uma experiência vivida. Carregam ícones do patrimônio, referenciando elementos históricos culturais, que representam e preservam a memória local. São os produtos artesanais que, em grande parte das comunidades com vocação e potencial turístico, sustentam grupos sociais e estimulam o desenvolvimento local. (35;26)

Para Martins (35), em uma visão antropológica, um grupo social se sente pertencente a um lugar ou território ao se relacionar diretamente com a sua identidade cultural. Esta identidade é composta de objetos, adornos, vestimentas, culinária, música, modos de vida, rituais e quaisquer outros elementos capazes de distinguir um grupo de indivíduos dos demais.

Segundo Pinho (28)

Uma das importantes estratégias de resgate da identidade do produto artesanal visa a integrar o cidadão artesão ao seu objeto de criação, revitalizando o produto artesanal através de costumes, hábitos e usos, permitindo que ele imprima na forma, no uso e na intenção, traços identificáveis de sua cultura original. (28)

Sendo assim, ao atuar sobre um território, uma comunidade desenvolve ações territoriais, que podem ser passivas ou ativas, de acordo com a atividade dos grupos sociais em relação ao cenário em que estão inseridas (17). Esta ação territorial pode ser fomentada pela inserção do design nestes grupos sociais. Ao desenvolver o artesanato identitário em prol de uma produção voltada para a sustentabilidade dos grupos, o papel do designer passa a ser de mantenedor do patrimônio e do território e estimulador do turismo. (15;18)

A partir dos conceitos apresentados anteriormente, cabe um maior aprofundamento na união do design com o artesanato, que será apresentada a seguir.

INTERSECÇÕES ENTRE ARTESANATO E DESIGN

Vários autores corroboram na direção de que a interação entre design e artesanato surge da necessidade de concepção de produtos com valores identitários que reflitam uma determinada cultura e um modo de vida, mas que também criem condições de sustentabilidade aos artesãos produtores. Esta união contribui para o desenvolvimento de novos significados, baseados nas referências culturais, visando a revitalização dos produtos locais. (15; GIULIANO, 2014; 34)

Conhecer a história e reconhecer a identidade de um lugar são ações importantes para a construção da iconografia de um território, com base no patrimônio histórico-cultural e nas manifestações artísticas. A união de cultura imaterial, cultura material e território possibilita o resgate de características específicas de determinados grupos. (18; 26)

Neste âmbito, o design age como impulsionador da inovação, contribuindo para a seleção de potencialidades do território e fomentando a valorização da comunidade local a partir de projetos de desenvolvimento de redes (18). Para Souza (15), não se trata apenas de uma atividade projetual de desenvolvimento de uma linha de produtos coordenada pelo designer, mas de uma comunhão da tradição com o mercado contemporâneo, do patrimônio com a inovação, fazendo com que o artesanato possibilite a sustentabilidade da comunidade local.

De acordo com Bonsiepe (36) existem diversos enfoques dados na união do design e artesanato. Alguns são mais conservadores, protegendo o artesão de referências externas, outros mais produtivistas, os quais fazem do artesão mão de obra barata para produções de artistas e designers, e alguns paternalistas, tratando os artesãos como clientela política de programas assistencialistas. Mas há um enfoque que converge com a visão de diversos autores, que trata de dar autonomia ao artesão, denominado enfoque promotor da inovação. (36) 

Neste mesmo raciocínio, Freitas e Nicacio (34) entendem que os projetos que favorecem a intervenção do designer junto ao artesão devem priorizar sua autonomia e sua satisfação com os produtos criados, envolvendo-o na concepção e desenvolvimento dos produtos. Entende-se que ao tornar-se pertencente do projeto, o artesão sente-se valorizado e participante do processo de resignificação cultural do qual faz parte.

Segundo Mazza et al (37) , esse processo de intervenção do designer junto aos grupos de artesãos baseia-se no mapeamento de potencialidades para a valorização de produtos artesanais e seus territórios onde participam o profissional de design e o artesão. Deste modo, são levantadas características culturais, econômicas, políticas, geográficas, sociais da região mapeada, para que a mesma possa ser compreendida em sua plenitude pelo artesão e para que ele possa se apropriar destes elementos e aplicá-los em seus produtos. Munido das características locais e compreendendo questões formais, simbólicas e funcionais, é possível para o artesão construir produtos que valorizem seu território e patrimônio cultural (37) . Esta relação do designer com os indivíduos das comunidades agrega valor aos produtos oriundos deste tipo de projeto. (31) 

Para Zavadil et al (38) , é tarefa do designer desenvolver produtos identitários que se relacionem com os indivíduos, fazendo despertar emoções e relações simbólicas. Sendo assim, o desenvolvimento de produtos que proporcionem bem estar é uma tarefa dispendiosa e desafiadora.

De outro lado, na visão de alguns autores, o profissional de design atua como um educador, no sentido de auxiliar no desenvolvimento de produtos, deixando o papel de ator principal do processo ao artesão, fomentando a sua criatividade através do estabelecimento de critérios para individualizar e diferenciar o seu artesanato (FREITAS et al., 2008). Sob esta ótica, a mudança desencadeada pelo designer é cultural, ideológica e pedagógica, fomentando a autonomia e a autoridade do artesão sobre o projeto.  Deste modo, segundo Romeiro Filho (39)

os artesãos deixam de ser "objetos" de intervenção (seja de designers, distribuidores, ou outros) e podem começar a agir diretamente sobre o seu próprio trabalho, não só operando em recursos materiais, mas também a produção de desenhos de suas próprias soluções. Ou seja, eles aprendem a projetar. (39)

Conforme Souza (15), o designer tem a responsabilidade de não optar por uma posição simplista de criação de produtos apenas desenvolvidos segundo o seu ponto de vista e preservando, assim, a criatividade intrínseca do artesanato. Para o autor, a solução para suplantar este desafio está na própria capacidade do designer de melhorar as técnicas, os motivos tradicionais, implantar sistemas de qualidade e introduzir estratégias comerciais. Este profissional deve agir de modo a valorizar a cultura e o artesão, sem apagar as suas particularidades, respeitando tanto o artesanato quanto o seu produtor (15).

Por fim, cabe citar Romeiro Filho (39), para quem os artesãos devem ser vistos como atores sociais e não apenas como clientes dos designers ou usuários dos seus produtos. As ações em prol dos artesãos devem visar a sua autonomia para desenvolver seus produtos, libertando-os em última instância dos próprios designers. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS


A organização de referências teóricas que apresentam a confluência dos temas design e artesanato é fundamental para embasar ações e pesquisas sobre o tema. O intuito deste estudo foi o de apresentar o design como mediador no contexto social, diferente de uma visão difundida do designer projetista de artefatos apenas a serviço do sistema industrial. 

Além disso, este artigo enfatiza a importância do artesanato no sistema social brasileiro, sua relevância na geração de renda da população e na perpetuação da cultura e história nacional. As questões teóricas foram encadeadas de modo a apresentar o artesanato como representação tangível da cultura, sob o olhar do artesão, historicamente oprimido pelo sistema global industrializado e massificado.

Este debate é fundamental para a revalorização das particularidades locais, do trabalho manual e da diversidade local, como forma de ressurgimento em meio à homegeneização cultural. 

O artesanato tem uma representatividade significativa na economia brasileira, caracterizado pela sua capacidade de atratividade cultural, pela possibilidade de geração de renda, pela redução de desigualdades e também pelo desenvolvimento dos territórios. Conclui-se que, por ser uma ocupação importante no desenvolvimento social, uma estratégia de ampliação das atividades artesanais é a integração com outras cadeias produtivas como o turismo. 

Para isso é necessário o desenvolvimento de comunidades locais com enfoque cultural, fortalecendo-as e preparando-as para as transformações advindas da inserção de novos atores no âmbito social. 

Sob esta ótica, a interação entre o design e o artesanato é, sem dúvida, uma realidade; cabe, porém, pontuar que não deve existir dentro desta relação uma hierarquia. A visão de que o designer está acima do artesão é bastante ultrapassada, ambos caminham lado a lado, em um enfoque de “Colaboração”: o designer transfere seu conhecimento metodológico ao artesão, visando que o mesmo utilize este conhecimento para resolver seus problemas de desenvolvimento e produto. 

Neste sentido, compreende-se que um dos grandes desafios da atividade do design nos dias atuais é a interpretação dos elementos culturais particulares, tornando-os atributos tangíveis a serem aplicados em artefatos, promovendo-os e difundindo-os no mercado. Deste modo, a atuação do designer como colaborador junto a grupos de artesãos é uma possibilidade de contribuição para uma mudança social e para o desenvolvimento sustentável de pequenas comunidades no Brasil.

Pode-se afirmar então que, confirmando o entendimento de que o Design apresenta um viés de transformação social, a sua intersecção com o artesanato pode possibilitar a geração de renda, valorização das diversidades culturais e perpetuação da história e particularidades dos povos brasileiros.

* Nicole Tomazi é designer e pesquisadora. Bisneta de imigrantes, nasceu no interior do sul do Brasil e desde pequena tem um vínculo muito forte com o território, a cultura local e a ancestralidade. Atua unindo o design e a produção artesanal desde 2007 por meio do desenvolvimento de peças autorais, trabalhando com grupos de artesãos e também em projetos para a indústria. Em 2016 se tornou Mestre em Design com uma pesquisa voltada ao Design Territorial, observando maneiras de manter a cultura e tradição local utilizando ferramentas projetuais. Acesse nicoletomazi.com.

REFERÊNCIAS

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